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Badauê: Mestre Sabiá e a sua Arte das Artes

Por Mateus Ronelle

Capoeira - Mestre Sabiá - Campina Cultural
Mestre Sabiá na sua sala no Centro Cultural - Foto: Matheus Assis

Badauê é uma palavra de origem africana que significa festa. Esse termo acompanha o Mestre Sabiá há mais de 40 anos dedicados à capoeira. Para ele, ser capoeirista é mais que uma expressão artística popular, é um estilo de vida e uma forma de manter vivos os valores ancestrais.


Natural do município de Areia (PB), Marcos Antônio morou com os seus avós até os 11 anos de idade. De lá, seguiu até João Pessoa, para viver com a sua mãe. Na capital paraibana, Mestre Sabiá conheceu a arte trançada em seu destino e que seria seu principal alicerce na jornada da vida: a Capoeira.


O primeiro contato de Marcos aconteceu através de uma roda de capoeira que se apresentava em frente ao Hotel Tambaú e na feirinha de artesanato da capital. Aos 18 anos, quando estudava na Escola Estadual Santa Júlia, um colega de sala começou a dar aulas de capoeira nessa mesma escola nos finais de semana, e Marcos decidiu participar. A turma não deu certo, os alunos começaram a desistir gradativamente, mas ele, não. Marcos foi conquistado por essa arte e foi treinar com o mestre de seu colega no Sesc. Foi dado o primeiro passo, nascia Mestre Sabiá.

Graduação - Capoeira - Mestre Sabiá - Campina Cultural
Graduações de Mestre Sabiá - Foto: Matheus Assis

O processo para chegar à mestria durou anos. São 11 graduações, e cada estágio varia de 2 a 5 anos e vai depender da participação e regularidade do membro. Ele começou na capoeira em 1982 e conseguiu apenas em 2012 o seu cordel de mestre em capoeira.


Todos os seus estágios estão emoldurados em um quadro na sua sala no Centro Cultural, em Campina Grande (PB). As cordas ou cordéis, seguem as cores da bandeira do Brasil. Segundo Mestre Sabiá, é uma forma de dar ênfase à origem brasileira da capoeira. Ele não ganhou a mestria, conquistou-a.

“Em 1986, eu passei a fazer parte da Associação Brasileira e Cultural de Capoeira Palmares, e foi através dessa associação que eu cheguei à mestria da capoeira.”

Ele salientou de forma tranquila e confiante, ‘a capoeira é a arte das artes’. Um estilo artístico que envolve as diferentes manifestações corporais e culturais. Contorna a musicalidade, a dança, a poesia e os instrumentos confeccionados pelos próprios praticantes desse ofício cultural e histórico brasileiro, dando um caráter artesanal e original.


Influenciado pela sua paixão pela capoeira, Mestre Sabiá cursou licenciatura em história, buscando conhecer mais a fundo essa arte, para passar com mais segurança aos alunos a importância dessa expressão. Além de entender os valores da ancestralidade, que para ele, é um verdadeiro código de honra.

“O que me motivou foi a possibilidade de estudar e entender mais a fundo os nossos ancestrais. Os valores da ancestralidade. Isso começa dentro da nossa própria família, conhecendo a nossa história, de onde viemos e para onde iremos.”

O saudoso e experiente Mestre Sabiá conheceu inúmeros lugares, incluindo alguns estados brasileiros e países europeus, como a Alemanha e a França. Teve a oportunidade de realizar workshops e palestras com o intuito de apresentar sua ‘arte das artes’. Mas com a mesma serenidade de sempre, ele diz: “Foi a capoeira que me levou.”


Nas suas viagens para Europa, Mestre Sabiá enfatiza a boa receptividade dos cidadãos do Velho Continente à capoeira, e isso lhe causou surpresa, porque segundo ele, é um comportamento que difere do cidadãos brasileiros, que não valorizam essa cultura popular e ancestral de seu país, muitos por preconceitos, por ser uma manifestação cultural Afro-brasileira, conforme ele analisa. Marcos foi vítima de preconceito por ser praticante da capoeira, ao ponto de algumas vezes não se apresentar como mestre de capoeira, mas sim professor, não de capoeira, mas de história. Isso deixava-o desconfortável nos ambientes sociais.

“Passei um bom tempo para dizer que era mestre de capoeira. Antes quando perguntavam sobre minha profissão, eu dizia professor.”
Capoeira - Mestre Sabiá - Associação Badauê - Campina Cultural
Mestre Sabiá ao lado do cartaz da sua Associação de Capoeira - Foto: Matheus Assis

Mas isso não o abalou. Hoje ele é professor, e de capoeira. Para Mestre Sabiá, esse preconceito é resultante da ignorância de muitos em relação à prática da sua ‘arte das artes’.


Diante de todas as conquistas da capoeira, ainda tem a discriminação, e muitas vezes de forma indireta. Como a não presença de professores de capoeira nas academias de grande porte ou ginásios no Brasil.


Apesar disso, essa expressão artística foi nomeada em 2008 como Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil. Em 2014, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade e tem sua prática em mais de 50 países espalhados pelos 5 continentes do globo terrestre.


Projeto Badauê


Aos 20 anos, quando veio morar em Campina Grande, Mestre Sabiá decidiu criar um grupo de danças afro, como o maculelê, samba de roda, puxada de rede, afoxé e claro, capoeira. Não deu certo, muitos saíram devido aos preconceitos e afrontamentos de amigos e familiares. Mas tinha algo que não poderia se extinguir, ‘a arte das artes’ permaneceria, porque ele não a largaria. Nascia junto com Marcos, ou melhor dizendo, Mestre Sabiá, a Associação de Capoeira Badauê e essa, ele não abriria mão.

Capoeira - Associação Badauê - Campina Cultural
Membros da Associação Badauê jogando capoeira - Foto: Matheus Assis

Essa associação tem o Centro Cultural como sede matriz, mas se estende para outras cidades circunvizinhas de Campina Grande e do Litoral Paraibano, como: Alagoa Nova, Juazeirinho, Coremas, Rio Tinto, Baía da Traição, entre outras.


Mas não é quantidade que busca Mestre Sabiá, é a qualidade. Não qualidade referente a habilidade, mas a qualidade que resulta aprendizagem e valorização do que é dele e do povo brasileiro. A expressão artística e cultural que tem nome e sobrenome: Capoeira do Brasil.


Uma celebração, uma festa… Badauê!


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Texto: Mateus Ronelle

Entrevista e Produção: Mateus Ronelle | Nilo Barreto

Fotografia: Matheus Assis

Editor de Texto: Eduardo Gomes

Editor-Chefe: Rafael Melo

Diretora de Redação: Ada Guedes























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